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Casa Baeta

O chalé ou casa Baeta foi construída em 1928, em Olhão, na Avenida Dr. Bernardino da Silva (n°s. 70 a 82). Esta Avenida tinha sido iniciada como um eixo estruturante da então vila, fruto de um alargamento do centro urbano, motivado pelo grande aumento populacional verificado no período da instalação e florescimento das fábricas conserveiras em Olhão.

A casa merece, de acordo com a associação APOS, ser classificada como Património de Interesse Público, uma vez que mantêm a memória do passado através do magnífico conjunto de azulejaria do Mestre Jorge Colaço, e porque representa uma época de revivalismo ecléctico (características classicizantes, misturadas com a nova matéria-prima construtiva, o ferro ornamental, como um anúncio da Arte Nova).

O seu primeiro proprietário, Domingos Lourenço Baeta, antigo vereador da Câmara Municipal de Olhão, foi um representante da pujança económica da época que, proprietário de uma fábrica de conservas de peixe fundada em 1916, com os muitos rendimentos retirados da sua actividade, decidiu construir uma mansão que fosse um tributo à sociedade, economia e história de Olhão, que tanta riqueza lhe dera.

A casa tem dois pisos (r/c e 1º andar) com uma fachada frontal simétrica, composta por um frontão triangular proeminente a encimar a parte central do primeiro andar e dois painéis laterais de azulejos historiados da autoria do mestre Jorge Colaço, situados na charneira dos dois pisos.

A azulejaria do frontão, imbuída do espírito de desenvolvimento industrial atingido em Olhão neste período, é composto de uma imagem feminina, representando a indústria, sob protecção de Neptuno (deus do mar) que ostenta o tridente e a coroa de louros. Ao fundo observam-se fábricas e, em primeiro plano, uma âncora. Este frontão representa a importância da indústria e da pesca em Olhão.

Frontão:

 

 

O painel de azulejos da esquerda mostra repetidamente caíques em cenários de pesca, nomeadamente a pesca de cerco da sardinha, do atum com armação, e da arte chávega. Novamente, aqui faz-se a homenagem à faina marítima e a sua importância para Olhão.

Painel à esquerda:

 

 

No painel  da direita, figura o maior evento histórico de Olhão: a travessia atlântica do seu caíque Bom Sucesso (com a proteção figurada da Padroeira de Olhão, a Nossa Senhora do Rosário), e da sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1808, para dar a boa nova à família real que as tropas napoleónicas já estavam sendo derrotadas em Portugal, e que tudo tinha começado em Olhão!

Painel à direita:

Jorge Colaço

 

Tudo isto dá ao edifício um ar solene e patriótico mas, para além da importância simbólica que o edifício tem para os locais, a sua maior importância estética reside na azulejaria do mestre pintor Jorge Colaço (1868-1942) que foi um exímio desenhador destacando-se na caricatura, na pintura e no azulejo, aqui com capacidades inovadoras de processos e de técnicas. O artista está representado com grandes painéis de azulejo em muitos outros edifícios, sobretudo em edifícios públicos nacionais e internacionais do seu tempo,, nomeadamente:

 

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Estação de São Bento, no Porto (1903)

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Palácio Hotel do Buçaco, no Luso (1907)

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Pavilhão dos Desportos, em Lisboa (1922)

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Exterior da Igreja de Santo Ildefonso, no Porto (1932)

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Escola Primária de Forjães, actualmente sede da junta de freguesia e Centro Cultural Rodrigues de Faria) (Março a Setembro de 1933)

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Exterior da Igreja dos Congregados, no Porto

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Casa do Alentejo (Palácio Alverca), em Lisboa

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Palácio da Bemposta (Academia Militar), em Lisboa

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Torre de São Paulo, nas Muralhas de Ponte de Lima

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A Merendinha, pastelaria situada na Rua dos Condes de Monsanto, em Lisboa (à Praça da Figueira)

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Palácio de Windsor, Inglaterra, tríptico alusivo à visita da Rainha Alexandra a Portugal, feito por encomenda do Marquês de Soveral.

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Centre William Rappard em Genebra

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Hospital Modelo da Maternidade de Buenos Aires

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Palácio do presidente Marechal Monreal, em Cuba

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Clube de Futebol e Regatas Vasco da Gama e Liceu Literário Português no Rio de Janeiro; no Hospital Português na Baía.

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Residências particulares no Brasil (Teresópolis, São Paulo e Rio de Janeiro) e em Cuba e Uruguai. 

 

Na fachada da casa Baeta, para além da azulejaria, há também um cuidado especial na colocação dos vãos, distinguindo-se no piso superior três janelões centrais geminados com ombreiras de pedra "estilo Korrodi", ladeadas por janelas de peito também geminadas com coroamento em pedra. A acompanhar os janelões centrais, balança-se uma varanda com ferragens de tendência arte nova, entre pequenos pilares de pedra.

A frente do primeiro piso está um portal central de grande lintel e cartela superiores, revestido a pedra, mas os vãos laterais foram já totalmente adulterados por portões de alumínio de péssimo gosto. Estes portões laterais foram colocados só quando a autarquia lá inaugurou a Galeria Adriano Baptista e a Biblioteca (depois de 1989), porque temos imagens de quando no local funcionava o Quartel de Bombeiros (até 1988), em que tais portões eram envidraçados e de caixilharia de madeira vermelho-escura, totalmente diferentes dos actuais.


Casa Baeta em finais da década de 1970

A assinalar a cimalha (saliência no alto da parede onde assentam os beirais do telhado) do topo do edifício estiveram até 2006 quatro esferas armilares em pedra colocadas no seguimento das pilastras verticais, que estão associadas às viagens marítimas dos olhanenses. Infelizmente, estas quatro esferas armilares foram demolidas em 2006.

Há ainda a salientar no interior da casa Baeta a sua colossal escadaria de entrada, onde duas gigantescas colunas coríntias se impõem, como cartão de visita da casa, à semelhança de um "foyer" de teatro. De cada um dos lados da entrada interior temos um lambrim de azulejos datado de 1921, com imagens de cada uma das filhas do proprietário (Natércia e Virgínia Baeta), também da autoria do mestre Jorge Colaço. O tecto, conduz a uma ambiência romântica, na forma almofadada e trabalhada dos estuques de que é decorada.

Depois de casa de habitação, uma parte da área desta casa foi alugada à Câmara Municipal de Olhão em 1960 para instalação dos Bombeiros Municipais e em 1989 para a instalação da Galeria Adriano Baptista, Biblioteca Municipal e o Elos Clube de Olhão. Após 2006 o edifício foi entregue aos seus proprietários herdeiros, esperando estoicamente pela sua sorte: demolição, ruína lenta, ou reabilitação…

Chamo a atenção que o edifício só ainda não foi demolido porque a associação APOS elaborou em 2007 uma proposta de classificação patrimonial para a Direção Regional da Cultura (ex-IPPAR). Esta Direção considerou que o edifício só poderia ser classificável num processo municipal pelo que deveria ser a autarquia a apoiá-lo. Infelizmente, a autarquia não só não apoiou como perdeu todos os dossiers de processos municipais em 2009 !!! Ou seja, a autarquia fez desaparecer, voluntariamente ou não, os processos de classificação municipal que foram chegando de outras entidades, nomeadamente o processo da casa Baeta e todos os outros!

A casa Baeta é, como já referi, um símbolo da importância de Olhão na indústria ligada às pescas e na história nacional mas, actualmente, a casa Baeta representa simbolicamente também o que de pior Olhão se transformou na década de 1980 até aos nossos dias. A colocação de portões de alumínio para transformar a casa Baeta num dos espaços “culturais” mais proeminentes da terra, em 1989, é uma metáfora caricata da “política” cultural da autarquia !!! Depois, em 2006, as quatro esferas armilares foram demolidas ilegalmente, com a total conivência da autarquia, numa primeira tentativa de demolir todo o edifício. Desde esse momento, o tempo vai passando sem que a mesma autarquia atue, na esperança hipócrita de que o esquecimento resolva definitivamente o assunto…

 

 António Paula Brito

Outubro de 2010

Fontes bibliográficas:

- Lima, Maria de Lourdes, Manifestações da arquitectura revivalista no Algarve­rotas de um património a preservar, 2002, pp.177-179 (tese de mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, policopiada).

- Wikipédia