Israel Abraham Cagi Anahory

 

Israel Anahory, judeu português, nascido em Lisboa em 23-05-1884 (filho de Rafael Simão Anahory e Ester Cagi, casado com Simone Delacroix), no mesmo ano de Francisco Fernandes Lopes, foi um dos seus amigos de adolescência em Lisboa e curiosamente morreu no mesmo ano, em 1969, embora desde jovem sofresse de asma que lhe provocavam gravíssimos ataques, e que foram motivo de um poema de António Barahona:

 

 

MEMÓRIA DE ISRAEL ANAHORY


Um velho pássaro com asma, esquálido,
numa aflição, à mesa do café.
Levanta-se, mas não se tem de pé,
cai todo na cadeira, muito pálido:

o bico de marfim boquiaberto,
suor frio na testa côr de cobre,
devoto, o seu perfil de judeu nobre
a orar, por socorro, no deserto.

Só hoje sei que foi sua oração
atendida, e que fui eu o enviado,
naquele instante, à Brasileira do Chiado,
pra lhe estender a mão de Deus na minha mão.

17. VI. 10

António Barahona, "O Som do Sôpro", Poesia Incompleta, 2011.

 

Na sua juventude terá sido um idealista irrequieto pois, segundo o seu processo do arquivo da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), terá pertencido à Carbonária e tomado parte no assalto de vários quartéis, provavelmente no período revolucionário republicano.

Foi ainda como estudante liceal que conheceu e se tornou amigo de Francisco Fernandes Lopes, por volta de 1903, reunindo-se todas as noites com Carlos Olavo, Ramada Curto e Francisco Pulido Valente para ouvir música na cervejaria Jansen. Foi ainda amigo de Almada Negreiros e de Fernando Pessoa (que a ele e ao irmão alude diversas vezes no diário de 1913)*.

Israel Anahory tornou-se dentista e como tal trabalhou na Rua Garrett em Lisboa até 1921*. Após esta data ingressou na carreira diplomática, sendo colocado como Cônsul de Portugal    em Sète, no Sul de França em 1923 e, a partir de 1925, em Rouen, no Norte de França*. Nesta cidade, de 1931 a 1935, concedeu passaportes falsos a dois antifascistas (os ex-oficiais Agatão Lança e Utra Machado) para entrarem em Portugal em missão revolucionária, e por isso foi exonerado do cargo e só não foi preso por residir no estrangeiro. Esta informação consta dos arquivos da PVDE mas obviamente Israel Anahory concedeu mais passaportes falsos que não foram detectados pela polícia política. Segundo escreve Fernando Morais na página 54 do seu livro "Olga" (Edições Avante), foi ele quem concedeu um passaporte português falso ao líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes e à sua mulher, a alemã Olga Benário, para que ambos pudessem viajar clandestinamente para o Brasil, em 1934.

Também parece ter tido uma ação humanitária relevante no apoio que então fez aos emigrantes portugueses mais pobres e indefesos na sua área de influência**.

 

Israel Anahory, após ter sido exonerado, passou a residir com a mulher em Madrid, em março de 1936, onde esteve implicado na criação da "União dos Antifascistas Portugueses Residentes em Espanha", no dia 20 de agosto de 1936.

Quando a Guerra de Espanha teve início alistou-se e foi enviado para a frente por ter sido tenente do Exército português na 1ª Guerra Mundial mas, devido à sua idade (53 anos) e à sua asma, foi imediatamente considerado inapto para o combate.

Nesta época adere ao Partido Comunista, adota o pseudónimo "Comandante Certo" e dirige em Madrid a Secção Portuguesa do Socorro Vermelho Internacional.

Aqui vive de explicações de francês, italiano e português, mas em 20 de agosto de 1937 regressa a Paris com a esposa, onde trabalha até ao início da 2ª Guerra Mundial para a "Secção Portuguesa da Internacional Comunista"**, de acordo com os relatórios da PVDE (embora segundo Cristina Clímaco não é clara a existência de tal secção organizada). Na mesma época escreve artigos para o jornal Unir (jornal da Frente Patriótica Portuguesa,* de tendência esquerdista democrata)** e a Correspondance Internacionale (da Internacional Comunista)* e dedica-se ao cinema, chegando a referir-se a si mesmo como um cineasta. Efetivamente terá participado em dois filmes de Jean Renoir (La bête humaine", 1938, e "La régle du jeu", 1939), segundo se lê numa sua carta enviada em Maio de 1940 de Osseja (vila nos Pirenéus franceses) para o irmão, em Lisboa, onde se queixa da partida de Jean Renoir para Itália, devido ao início da guerra.

Com o início da Guerra não tem alternativa senão regressar a Portugal onde é imediatamente preso na fronteira, em Elvas, em 12 de Outubro de 1940. É encarcerado no Aljube e após o julgamento é condenado a 97 dias de prisão e à perda de todos os seus direitos políticos por 5 anos.

Depois da sua libertação a PVDE escreve um relatório onde se lê que " o indivíduo em questão apesar de velho e doente tem tais ligações e afinidades políticas e rácicas [sic...] com os inimigos do Estado Novo e é tão inteligente o seu sistema de conspirar, que se afigura da maior conveniência afastá-lo do território nacional" .

Efetivamente deu-se 30 dias para Israel Anahory sair de Portugal mas, como provavelmente não foi possível cumprir a notificação, este voltou a ser preso e posteriormente terá acordado em sair para S. Tomé em 18 de setembro de 1941.

Terá conseguido passar para o Congo francês porque aí o encontrou Alexandre Cabral (como o relata no seu livro "Memórias de um resistente") a trabalhar na Radiodifusão francesa, fiel à França livre de De Gaulle.***

De facto, segundo relatório da PIDE, datado de 1955, Israel Anahory passou a receber uma pensão vitalícia do Estado francês por serviços relevantes à França, sendo considerado "um estrangeiro com direitos e regalias especiais" (sic). 

Após a libertação de Paris (e ainda antes do final da guerra) Israel Anahory partiu para a cidade-luz, inesperadamente para os amigos, a quem confidenciou que a "organização o chamava..."  (possivelmente o partido comunista francês) e onde passou a trabalhar na secção portuguesa da Radiodifusão Francesa***. Poucos anos depois, Alexandre Cabral conta que o encontrou em Paris vivendo com uma "camarada", pois que a sua esposa o teria enganado.

Foi só na década de 1950 (provavelmente só após 1953) que regressou a Portugal, tendo fixado residência em Olhão em Maio ou Junho de 1955, já com 71 anos de idade, porque Francisco Fernandes Lopes ter-lhe-ia sugerido que aqui não sofreria tanto dos seus terríveis ataques de asma e poderia inclusive trabalhar como dentista no consultório do dr. Calapés, na Rua Alfredo Keil, como efetivamente veio a suceder. A esposa na época continuou residindo na África francófona.

 

Israel Anahory residiu primeiro na R. Gonçalo Velho, nº 15*  e, depois, numa casa demolida por volta de 2010 no cruzamento entre a EN125 e a Estrada de Pechão.

 

Quando chegou a Olhão foi alvo de um pequeno e discreto relatório da PIDE onde se referia que Israel Anahory apenas se dava com indivíduos desafetos ao regime, como era o caso de Francisco Fernandes Lopes, de quem foi amigo até ao fim da vida, já enquanto ambos residiam em Lisboa.

Foi durante muito tempo lembrado por ter comprado uma embarcação para fazer alguns passeios, mas que mais parecia um batel boiante na ria, pois quase não conseguia deslocar-se!

No entanto, como demonstra uma sua carta a Manuel Mendes * existente no espólio da Fundação Mário Soares, considerava Olhão um local entediante e os olhanenses indivíduos particularmente incultos, pelo que tinha apenas duas pessoas com quem falar: o seu amigo Lopes e o filho de Aquilino Ribeiro, então juiz na vila.

 

São muito poucas as referências à sua vida na internet: quando fazemos uma pesquisa damos conta de uma sua publicação na separata da Seara Nova de 1951 (existente na Biblioteca Nacional para consulta) que é uma homenagem póstuma a Gualdino Gomes, também este um cidadão hoje desconhecido, que nos princípios do séc. XX integrava o grupo de intelectuais que se passeavam em Lisboa pelos cafés Martinho, Brasileira e Chiado.

De Gualdino Gomes, Israel Anahory escreve aquilo que nós também poderíamos escrever dele:

Sem cuidar em legar uma obra, realizou uma muito bela, perfeita, exemplar: sua própria vida.

Com Gualdino Gomes desapareceu uma estranha, nobre e interessantíssima figura!

Outra publicação, que potencialmente poderia dar informação interessante sobre Israel Anahory, da autoria de Francisco Ferreira, com o título "Um idealista esquecido", e que teria saído n' O Tempo no dia 27 de Maio de 1987, infelizmente não encontrei, mesmo após consulta na Biblioteca Nacional sobre este jornal, tendo até verificado que esta data está errada: O Tempo era um semanário cujas datas mais próximas foram 21 e 28 de Maio, onde também nada encontrei.

 

Qualquer informação adicional que me possam dar, agradeço que o façam para o email olhao@sapo.pt .

 

 

António Paula Brito, 2013

Fonte: baseado em testemunhos orais, em texto de Kiki Anahory Garin e no arquivo da PIDE, existente na Torre do Tombo.

* informações fornecidas por José Barreto.

** informações fornecidas por Cristina Clímaco.

*** um agradecimento a Victor Pereira, que me deu a conhecer o livro de Alexandre Cabral, "Memórias de um resistente" onde é falada brevemente a passagem de Israel Anahory pelo Congo francês.